Cruzeiro no Nilo e Templos (Kom Ombu, Edfu)

Após retornar da visita aos templos em Abu Simbel, fizemos checkout no nosso hotel em Assuã e embarcamos no cruzeiro pelo Nilo, no melhor estilo Agatha Christie. Diferente do roteiro do livro, Agatha embarca mais ao norte do Egito e vai para o sul até Abu Simbel, enquanto no nosso roteiro, embarcamos em Assuã no sul com destino final em Luxor ao norte. Esse sentido aproveita a correnteza do rio da mesma forma que os antigos egípcios faziam para transportar todas as rochas de calcário do sul para cidades e templos no norte ao longo do rio.

Vista do Nilo a partir do deck superior do cruzeiro.

Se você está em dúvida entre fazer ou não o cruzeiro, posso afirmar que foi a melhor experiência em conjunto da viagem. Além de estar navegando no Nilo e ir observando a paisagem selvagem enquanto o barco avança na brisa quente do deserto, existem muitos pontos sem interferência da civilização moderna e como os antigos egípcios deveriam ter vivenciado. Além desse fato, com o cruzeiro é possível visitar os diferentes templos que ficam ao longo do rio, alguns bastante preservados e com um número reduzido de turistas. Quando o cruzeiro estava se deslocando de uma cidade para outra, vimos inclusive alguns pescadores locais e crianças brincando e se refrescando na beirada do rio.

Deck superior do cruzeiro.

E falando em se refrescar, um dos meus sonhos era dar um mergulho no Nilo, porém, para minha surpresa, o local de onde saímos e em todos que iríamos ancorar não seria permitido nadar pois além de fundos eram pontos com outros cruzeiros e não muito amigável aos banhistas. Conversei com o guia e expliquei essa minha vontade. Após mobilizar o pessoal ele disse que poderíamos dar um megulho rápido ali no primeiro deck em Asuã, porém que teoricamente não era permitido e era uma camaradagem dos tripulantes e capitão. Fomos eu e o casal do Guarujá, Carlão e Léia, muito parceiros em toda a viagem e com espírito aventureiro. Pulamos no Nilo e ficamos um tempinho nadando contra a correnteza, que era bastante forte. A temperatura surpreendeu positivamente por ser fria, provavelmente por conta das nascentes nas montanhas, ou seja, além de trazer toda a vida ao Egito, o Nilo ainda refrescava a galera nos tempos de Ramsés II.

Vontando ao roteiro, passaríamos pelos templos de Kom Ombu, Edfu, terminando na cidade de Luxor. O cruzeiro tinha o nome de MS Salacia, era pequeno mas muito elegante com decoração toda em madeira escura, como se fôssemos transportados para a década de 50. Tinha um deck superior com mesas e totalmente aberto para ter uma vista 360º, além de uma piscina num deck intermediário para se refrescar. A tripulação era extremamente simpática e atenciosa, além de servirem refeições ótimas com bastante variedade e culinária local (perdi a conta de quantas tâmaras frescas eu provei). Junto com nosso grupo de 4 casais também tinha uma família italiana de 6 pessoas, além de outros casais e amigos, totalizando não mais do que 16 passageiros em todo o cruzeiro.

Foi bem tranquilo e estável viajar no cruzeiro e nem percebemos quando chegamos no primeiro no templo de Kom Ombu, homenagem a Sobek (o deus crocodilo) e Hórus (o deus falcão). Nesse templo conseguimos ver que alguns hieróglifos no teto ainda tinham suas cores preservadas, um fundo branco, com muitos detalhes em azul e vermelho. Incrível pensar que além de todos os detalhes, simetria perfeição nos símbolos entalhados ainda eram pintados com mesma atenção. Vimos o resultado mais próximo do original nos túmulos super preservados no Vale dos Reis em Luxor. Esse templo também tinha um mini museu, com todos os crocodilos mumificados que foram encontrados na descoberta do templo, impressionante.

Templo de Kom Ombu.
Nós e o templo de Kom Ombu logo atrás.

Aqui vale relembrar a dica de não dar muita atenção aos chamados de andarilhos ou mesmo policiais, que patrulham a região com AK-47 a tira-colo. Em geral o modus operandi é o mesmo, eles chamam você com a intenção de mostrar lugares para tirar uma foto com melhor enquadramento, explicar símbolos e espaços “exclusivos” para no final pedir uma gorjeta. Um simples não e continuar andando já é suficiente para despistar, caso não esteja afim de desembolsar uma grana por uma foto.

O segundo templo foi na cidade de Edfu. O templo não era tão próximo da costa do rio como em Kom Ombu e precisamos pegar uma charrete até lá. A experiência foi boa, jovens que guiam a charrete falam um pouco sobre a família, perguntam e ficam felizes em saber a nossa nacionalidade. Por fim a sugestão é deixar uma gorjeta mais generosa, afinal é um serviço essencial para os turistas naquele local.

De charrete até chegar ao templo de Edfu. como diria o charreteiro, no futebol: “Brazil number 1, Edfu number 2!”

Edfu é aquele tipo de templo que faz você refletir sobre o trabalho que os construtores tiveram ao longo de décadas para chegar mais próximos dos seus deuses. É um dos mais preservados do mundo antigo e dedicado ao deus falcão, Hórus. As paredes de entrada do templo são gigantes, do tamanho de um prédio de 15-20 andares e todo o pátio interno a supreende novamente com suas colunas. Inclusive, que história é essa dos gregos terem inventado a coluna? Os egípcios dominavam esse elemento de arquitetura há pelo menos 2000 a.C., vale aqui refletir sobre mais esse detalhe eurocêntrico e dar os créditos aos africanos.

Frente do templo de Edfu, reparem no tamanho da pessoa na sombra da porta.
Ana dentro do templo de Edfu.

Depois de caminhar bastante pelo templo, tirar ótimas fotos, apreciar cada detalhe nos símbolos das paredes e tetos, retornamos ao cruzeiro em baixo de um forte calor da tarde. No retorno, ao passar pelo centro da cidade de Edfu de carroça, ouvimos os auto-falantes das mesquitas tocarem, foi realmente um momento de imersão e reflexão, afinal, estávamos nós lá no meio de uma cidade ao sul do Egito numa carroça enquanto os as pessoas já se preparavam para rezar. Lembrando que na maioria dos templos a saída passa por uma lanchonete, para que você possa dar uma bela hidratada, e um feirinha de artesanato e souvenirs diversos.

A noite no cruzeiro era muito agradável, inclusive descobrimos na prática o motivo de tantas literaturas e cinema citarem as “noites árabes”. Por conta do calor extremo durante o dia, a noite, por mais quente que seja, é um calor agradável e já fora da influência do sol e um ótimo momento para estar no céu aberto, sentir o vento que vai ficando mais fresco e tomar uma bebida gelada. E assim seguimos nas nossas noites no cruzeiro, curtindo o jantar, a piscina e um descanso merecido depois das longas e interessantes caminhadas pelos templos embaixo do sol do deserto. Chegamos finalmente em Luxor e nos despedimos das rotas em cruzeiro (ainda dormiríamos uma noite nele mas sem deslocamento) e de toda a beleza que vimos ao longo do percurso, com certeza memorável.

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